sábado, 24 de novembro de 2007

Sideways de Alexander Payne

Half my life is over and I have nothing to show for it. Nothing. I'm a thumbprint on the window of a skyscraper. I'm a smudge of excrement on a tissue surging out to sea with a million tons of raw sewage.

Existe, inevitavelmente, na vida de cada ser humano, um momento em que se percebe que o tempo não pára e que não duramos para sempre. Ao chegar a esse ponto do caminho, o instinto manda-nos olhar para trás e analisar o que percorremos e se deixámos, de facto, uma pegada no areal do mundo. É depois do que vimos, que a estrada que segue em frente nos parecerá mais ou menos prometedora, mais ou menos atractiva. Sideways descreve esta e muitas outras questões próprias da condição humana. Paul Giamatti está notável na profundidade que confere a Miles, um desiludido com a vida, pessimista e deprimido, com uma visão desencantada do mundo e marcado pelo vazio que cobre os seus dias. Ele não procura a cor, o cheiro e o sabor perfeitos, procura-se a si mesmo. Jack, interpretado por Thomas Haden Church, mais que degustar os vinhos, a sua intenção é saborear os prazeres sexuais, que depressa se revelam insuficientes e escassos para o preencher enquanto pessoa. Virginia Madsen mostra-se encantadora e apaixonante, assinando um dos mais belos discursos do filme, em que se refere ao vinho como metáfora da vida, demonstrando a urgência de se entregar aos prazeres que a vida tem para oferecer, antes que seja demasiado tarde e que essa existência entre no inevitável declínio.

Sideways obriga-nos a olhar para lá do visível, entrando no imo das personagens, ajudando-nos a compreender o ser humano, nas suas fraquezas, fragilidades, desejos e esperanças. Resta-nos fazer com que, ao olharmos para trás, experimentemos o contentamento, a completude, quanto muito a saudade por alguns momentos, mas nunca a desilusão e o vazio.